domingo, 26 de novembro de 2017

Sobre a informalidade da comunicação


Sobre a informalidade da comunicação


Como a forma de nos comunicar influência, ou não, o povo que nos ouve


Eu nasci na favela. Aliás, eu nasci numa rua em que tinham diversos bares e casas de prostituição, (luz vermelha na linguagem popular). Lá, na minha infância eu me comunicava com todo tipo de pessoas. Todo tipo! À medida que fui crescendo isso não mudou nada, saí da rua da luz vermelha pra uma rua no outro extremo do bairro nas mesmas condições, exceto pelas luzes vermelhas, mas com o mesmo tipo de pessoas simples e pobre, não vou exagerar, eles tinham o básico e usavam isso da melhor forma possível. Enfim, cresci e vivo até hoje em locais considerados como subúrbio, locais onde pessoas não falam inglês, não possuem recursos para ir e vir (apesar de que hoje isso é um pouco diferente) e, onde quero entrar, não possuem instrução avançada para comunicação. Eu sou da favela! E diferente do que as propagandas na Globo mostram, na favela existem os mesmos problemas a décadas no Brasil, é mais fácil ver um jovem entrando no mundo das drogas do que na UFES.
Sempre me comuniquei de forma simples, foi o que recebi culturalmente da minha mãe e família, a maior parte dos meus amigos era da favela ou eram menores abandonados pelos pais vivendo no antigo projeto Patronato em Resplendor – MG (saudades). É curioso ser o branco de olhos verdes num mundo onde a maioria é negros, isso mesmo, na minha infância poucos brancos viviam assim onde eu morava. Claro que por crescer assim eu nunca liguei em ser o branco no meio dos negros. Todos nós sempre fomos iguais e eu vivo isso até hoje, mesmo num mundo racista que vivemos. Fato é que a nossa comunicação revela mais sobre onde passamos maior parte de nossas vidas do que um sucesso acadêmico. Cresci me comunicando de forma simples e direta, consegui algumas brigas por causa desse detalhe e quando entrei na faculdade de teologia tudo começou a mudar. Livros e mestres com linguagens estranhas começaram a fazer parte do meu cotidiano, eu comecei a absorver uma cultura que fez com que eu falasse de forma incrível, novas palavras, novas maneiras de falar e o melhor eu parecia ser um branco de olhos verdes com ensino superior! Porém, eu continuo no mesmo lugar, quero dizer, vivo com as mesmas pessoas que se comunicam de forma simples, com poucas regras gramaticais, bastantes trejeitos, palavrões e gírias. Os que não usam palavrões mantém uma forma bem simples de falar. 

Certa vez, preparei um sermão (na época eu estava cursando teologia) e apresentei na igreja que congrego. O sermão era lindo, não lembro mais o que falava, mas era perfeito. Para minha insatisfação nenhum dos membros entenderam o que eu estava falando! Uma hora de sermão jogado fora. Em contraste a isso eu já vi pessoas chorando apenas ao me ouvir numa leitura e um comentário rápido sobre um texto bíblico. A comunicação verbal é uma das melhores maneiras de nos conectar ás pessoas que queremos, quase todo mundo entende isso e você pode ver isso todo domingo na sua TV. Um exemplo clássico são os programas que exploram a pobreza do brasileiro como uma forma de ganhar dinheiro com propagandas. Eles se comunicam com o povo falando de coisas do povo e às vezes parece até que eles realmente sofrem pelo pobre, porém quando o programa acaba cada um entra em seu carro, fecha o vidro e parte para sua mansão. O pobre se tornou um combustível fácil para eles e essa estratégia estranha e eficaz faz com que estes programas nunca acabem.

Uma estratégia antiga e muito útil para qualquer pessoa que queira se comunicar com outras pessoas, você entra numa cultura e faz parte dela, mesmo que por um momento e assim introduz nas pessoas que fazem parte do mesmo meio cultural a sua mensagem, marqueteiros usam isso para vender, no entanto é possível usar isso para o bem! Jesus mesmo, aliás, Deus usou essa estratégia, ou Ele mesmo a tenha criado, para se comunicar com quem ele queria alcançar. Existem muitos textos de Jesus onde vemos claramente Ele, o Messias, se comunicando diretamente com eles, os pobres. Lemos em Lucas 14 o mestre ensinando sobre o sal e durante todos esses anos vemos pregadores ensinando sobre sermos sal no sentido de fazer a diferença e ser conservar a bondade, porém uma característica muito importante sobre o sal é que ele era comum e usado por todas as pessoas, isso é real ainda hoje, leiamos o que Jesus ensina:

O sal é bom para temperar, mas, se perder o sabor, como torna-lo salgado outra vez? O sal sem sabor não serve nem para o solo nem para adubo; é jogado fora. Quem é capaz de ouvir, ouça. (Lucas 14.34-35 – NVT)

Além de qualquer explicação que você já tenha ouvido sobre como ser sal e consequentemente como ser luz, já que o texto mais usado é o de Mateus, Jesus fala de um sal que é bom para temperar, ele não diz nada sobre separar ou conservar, o termo aqui é claro (como sal) e se refere a ser bom para o tempero. Jesus usou um dos temperos mais comuns do mundo para explicar como deveriam ser os seus discípulos e usou a sua melhor aplicação para ilustrar o que deveríamos ser na terra e todos aqueles pontos que nós já ouvimos centenas de vezes sobre como ser. Porém ainda não ouvi ninguém explicar que o sal é um dos temperos mais usados por todo tipo de classe social. E se no lugar do sal ele usasse o “curry”? Ele chegaria aos pobres e diria: “O curry é bom para temperar, mas, se o curry perder o sabor, como torna-lo saboroso outra vez?”. Você sabe o que é curry? Eu nunca comi isso, minha esposa que ajudou no nome (risos).

Mas, porque Jesus usou especificamente o sal? Na época de Jesus o sal que as pessoas mais pobres usavam era apenas uma pedra que ao ser colocada na panela liberava o tempero salgando a comida, após muito uso ela perdia o seu sabor e era descartado, pobres e ricos usavam o sal, porém aqui Jesus cita o sal que o pobre usava. O fato de Jesus ter usado esse símbolo mostra muito mais do que instruções acerca de nossa influência no mundo, mostra que Ele, Deus, usava uma linguagem simples e acessível para todos, fato comprovado até mesmo pelo texto bíblico onde após nos orientar sobre estas coisas foi julgado pelos fariseus porque estava falando com pecadores.

Cobradores de impostos e outros pecadores vinham ouvir Jesus ensinar. Os fariseus e mestres da lei o criticavam, dizendo: ‘Ele se reúne com pecadores e até come com eles’.” (Lucas 15.1-2 – NVT).

Lucas afirma que Jesus estava sempre com pessoas consideradas pelos fariseus como pecadores, talvez seja uma forma parecida de julgar quem está do lado de fora da igreja hoje. Os crentes os veem como os fariseus viam os cobradores de impostos e outras pessoas, bando de pecadores. O fato de Jesus estar sempre com estas pessoas mostra também que eles entendiam perfeitamente o que Ele ensinava, ainda que isso não resultasse em salvação de todos. Num mundo antigo e amargo Jesus vem como um sal, um bom tempero e simples, qualquer um podia estar perto dele e ser influenciado. Ele abria uma cultura difícil de engolir e trazia sabor. Ele faz isso ainda hoje.

A bíblia Thompson curiosamente classifica o verso 34 de Lucas 14 com a seguinte palavra: Formalismo. E na parte dos comentários ela classifica esse termo em outras duas categorias: Advertência e Insuficiência. Interligando essa passagem à formalidade usada pelos fariseus que os impedia de estar ou se comunicar com aqueles que eram considerados pecadores e listando em seus textos a forma mais comum dos falsos profetas agirem no seu tempo e no nosso quando cita 2 Timóteo 3.5 se referindo a mestres que pareciam cultos e sábios mas negam o poder de Deus e outros textos que mostram a obediência mais eficaz do que os rituais do Antigo Testamento.

Outro texto muito utilizado, agora com um contexto diferente do primeiro é a Parábola do Semeador em que Lucas já começa apresentando “uma grande multidão, vinda de várias cidades”. (Lucas 8.4 – NVT). Aqui existem diversas explicações muito parecidas que você provavelmente deve ter ouvido centenas de vezes, mas uma constatação muito importante é que apesar de o semeador não mudar a semente com relação ao campo que estava sendo jogada tal semente também se comparando com a mensagem do próprio evangelho estava preparada para nascer onde quer que tenha condições, ou seja, ela não era específica, era só uma semente. Observando a simplicidade de Jesus não é difícil imaginar o quão fácil é nascer em um terreno bom para plantio e Jesus não leva em conta nem mesmo o tipo de clima em que esta semente está sendo espalhada, seria difícil, por exemplo, plantar maçãs no deserto, no entanto a semente do evangelho nasce no Brasil com a mesma força que na África ou no Japão, lugares com climas diferentes.

Jesus ensinava usando como base as classes baixas, a linguagem comum e os exemplos comuns, dessa forma ele poderia ser compreendido por qualquer tipo de pessoa. Aqueles que usam curry com certeza conhecem o sal, mas nem todos (eu por exemplo) sabem o que é curry. E dessa forma qualquer tipo de mensagem consegue ser aprendida, repito, este é o mesmo segredo que os marqueteiros usam até hoje para difundir o uso de seus produtos.

Uma boa forma de terminar esta mensagem é desejar que você como ministro de Deus ensine, oriente e pregue da forma mais comum e clara possível, sem com tudo mudar a mensagem. Use estes segredos aprendidos com Jesus e usados até mesmo por pessoas que aplicam para o mal para que nós possamos influenciar todo tipo de pessoa no mundo e quem sabe através de um evangelho informal, como o de Jesus, possamos ser usados para a salvação e libertação de outras pessoas que hoje sofrem pela distância de Deus.

O blog Palavras em Chamas é um imenso resultado dessa informalidade que salva, após compreender este segredo e mudado a forma não apenas de escrever, mas de falar também, tenho conseguido chegar a lugares que antes era improvável e talvez impossível, quem sabe você mesmo é um desses ótimos resultados? Após esta leitura você está oficialmente convidado a ser parte dessa mudança, que traz transformação, solução e sabor à vida das pessoas que tanto precisam assim como nós precisávamos antes de ser alcançados pela graça de Deus.

Em amor, Devair S. Eduardo


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