sábado, 5 de agosto de 2017

Crônicas de Zephira 2 - #03

Parte dois - Capítulo três


Sem conseguir cem porcento de seu processamento e fazer upload com sucesso do novo plano Scott ficou alguns segundos observando o que estava acontecendo no antigo presídio. Aparentemente estavam bombardeando a entrada para tentar invadir o local. Tentou uma breve conexão com o segundo projeto, mas ele ainda estava desativado, seria os olhos dele do outro lado e facilmente resolveria tudo sem precisar acessar nenhum outro lugar.

Sem a conexão o robô acessou a realidade zero por um instante, voltou dois dias atrás e atravessou o mar agitado que separava a ilha do esconderijo. Voltou ao tempo certo e se escondeu atrás de algumas rochas à beira mar próximo a uma guarita abandonada onde conseguia ver todos os soldados que faziam ronda na prisão. Um deles veio em sua direção, portava uma escopeta calibre 12 e caminhava olhando em direção ao mar como se soubesse que alguém estaria observando, por sorte Scott estava bem posicionado e não foi visto. Escondeu embaixo da guarita em meio ao capim alto e esperou o soldado passar por ele, queria saber exatamente o que estava acontecendo antes de tomar alguma decisão. O tempo estava fechando e ventava bastante naquela tarde, algo ali atrapalhava a conexão com a parte de dentro do esconderijo. De longe via que outros soldados desciam de um caminhão aberto e pequeno, todos vestidos de preto, não eram do exército ou polícia. Aqueles soldados usavam uniformes distintos de tudo que possuía em seu banco de dados. Desceram cinco pelo esgoto abandonado enquanto dois ficaram vigiando, seria impossível entrar lá sem ser percebido, uma vez que a viagem pelos portais poderia gerar calor e barulho onde se abria e se um deles entrasse junto não sabia o que podia acontecer, o ser humano é muito imprevisível… isso ele tinha registrado.

Após os soldados descerem do caminhão uma última pessoa desceu, vestia um uniforme ainda mais estranho e ao ver o homem Scott ficou confuso por algum motivo desconhecido. Era alto, calculava um metro e noventa e cinco, magro e vestia uniforme parecido com o usado pelos soldados exceto por um estranho capacete branco com visor preto. De cima do capacete saiam cabos grossos que se moviam aleatoriamente e o homem olhava em todas as direções com que tentando encontrar alguma coisa. Buscando em um dos bancos de dados da darkweb Scott encontrou um projeto ainda em construção referente a um radar portátil que estaria sendo desenvolvido em um país no oriente médio, mas naquele ano o projeto não passava de rabiscos. Após o soldado seguir caminho pela estrada de chão Scott já tinha o mapa da movimentação de todos os outros soldados dos quais se podia ver, o contato com o esconderijo havia sido cortado e o outro robô ainda estava desligado. Sem muitas opções no momento ele acessou a realidade zero marcando como que num mapa a posição de todos presentes, ele iria de um lado ao outro e voltaria para 2011 escondido em um pedaço de muro onde ninguém conseguiria vê-lo.

Ao acessar a outra realidade e caminhar em direção ao ponto estratégico Scott notou que o último soldado, com o grande capacete branco estava ao mesmo tempo nas duas realidades, quando percebeu que estava lá parou como que por instinto e sentiu mesmo que parecendo impossível o tempo parar por um instante. A realidade zero é escura, vazia e fria, mesmo para um robô. Vultos passavam com a força de um vento e mesmo com alto poder de processamento ele não podia enxergar o que era, foi quando o soldado o reconheceu e voltou sua atenção a Scott. Em questão de milésimos de segundos havia desaparecido, quando o robô tentou procurar em volta foi atingido com tanta força na nuca que por dois ou três segundos sua visão e audição não responderam, um breve relatório foi enviado ao servidor mais próximo. Quando voltou estava caído em frente ao soldado que agora retirava com dificuldade e algumas risadas altas o capacete que usou para encontra-lo na realidade zero.

Enquanto se levantava foi agarrado com tanta violência que o seu processador de movimento foi desconfigurado e posto em pé. Os primeiros registros mostravam algo como que um robô mais alto e preparado do que K36, seu rosto não era humano e exibia algo como uma máscara branca com cavidades escuras em volta de onde seriam os olhos e boca. Não havia ouvidos. Lembrava algum projeto inacabado, porém seus movimentos eram perfeitos e Scott conseguiu notar que havia algo por baixo daquela aparente máscara.

- Mantenha-se de pé soldado! – Ordenou o estranho – Veja o seu futuro! A obra prima da criação robótica! – dizia enquanto posicionava o robô em pé. Scott conseguiu se soltar, apesar de não ser preparado para lutas ele conseguiu acesso a um amplo banco de dados sobre artes marciais e pode tomar alguns metros de vantagens.
- Veja! Veja a arte em criação robótica unida ao melhor processamento de dados da história! – Dizia rindo enquanto abria os braços como que se preparando para ser adorado pelo outro robô. Scott estava em pé buscando em qualquer servidor no mundo alguma informação sobre o sujeito em sua frente e logo desistiu de encontrar alguma coisa, todas as tentativas terminaram em alguma tragédia e seu corpo poderia não suportar mais ataques como aquele.
- Quem é você? Como está em duas realidades diferentes?
- Me chame de O Passador… e sim, eu conheço você e o projeto que deu origem a isso que você é… - disse zombando enquanto rodeava K36 observando os detalhes do projeto.
- Você segue ordens de quem? Porque estão destruindo tudo? O que é essa corrente eletromagnética em volta do seu corpo? Sinto que não consigo acessar a sua identidade eletrônica…

- Eu sou O Passador! Não costumo ficar em duas realidades ao mesmo tempo, por isso tive de usar esse truque humano fedorento e apertado… mas vejam só quem eu encontrei! O projeto Alpha! O primeiro de muitos robôs fracassados. Posso te contar alguma coisa, você será destruído hoje mesmo… você vai fracassar a encontrar o projeto Gênesis… por isso eu existo. E não, eu não sou deste mundo caído e frágil – Em mais uma demonstração de velocidade extrema o soldado derrubou mais uma vez o projeto K36, agora com o joelho o pressionando contra o chão enquanto continuava falando – Em algumas centenas de anos nós estaremos vivendo em outro lugar… primeiro vamos ao passado, depois ao futuro e por fim não apenas em outra realidade e blá blá blá, estaremos livres de vocês e da organização medíocre que vocês começaram hoje aqui neste fim de mundo. Olhe para o céu Scott, consegue encontrar a Centauri? Lá é o limite, onde começa a zona inabitável e onde estamos no ano que você deixará de existir. A nova humanidade! Pena você não ter tempo para isso mais! Meu campo eletromagnético interferiu na sua fuga em todas as cinco tentativas desde que você caiu sob os meus pés! Você também não teve tempo de descobrir, mas lá ainda não há resquício do criador da primeira grande era humana, somos livres!

Enquanto o Passador forçava o peitoral do robô contra o chão seco a fim de destruí-lo o local foi tomado por uma fumaça branca e pesada. Se formou como um pequeno ciclone e aos poucos ficou mais densa girando cada vez mais rápido. Como que jogado para trás o Passador caiu cerca de cem metros de onde estavam, desligado ou destruído, Scott ainda não tivera essa informação naquele momento. A fumaça branca girava agora em volta dele, o peitoral quase aberto tamanha força do outro robô, o aparelho responsável por atravessar as realidades completamente destruído. Mas ainda registrava o que estava acontecendo usando os processadores de imagem em sua cabeça de metal. A fumaça densa e branca como neblina ficou ainda mais rápida, girava agora em torno do projeto K36 e foi possível notar que relâmpagos surgiam dela e então parou completamente, ainda pesado. As câmeras de Scott não podiam captar nenhuma informação que não fosse a neblina, o peso e os relâmpagos.

- Levante-se robô! Ponha-se de pé e não grave o que você verá ou ouvirá aqui, apenas registre as minhas informações básicas na sua memória.
- Que espécie de máquina é você? Não consigo enxergar nada, como poderia registrar… - Disse enquanto seu sistema de controle fazia a estabilização para ficar em pé, teve dificuldade em calcular a distância entre o chão e o joelho, onde apoiaria com uma mão para conseguir se por em pé, escorregou duas vezes na tentativa e conseguiu ainda desestabilizado ficar sob os dois pés.
- Apenas ponha-se em pé! – A voz caminhava pela neblina, não se via ou captava nada, apenas o som da voz.
- Apesar de ser uma máquina… você será usado para alguns propósitos antes de ser desligado. Atente-se ao que vou lhe dizer. Você deve ir atrás do projeto Gênesis seis e logo depois deve procurar por pessoas desaparecidas, foi incluso um registro especial em um dos seus bancos de dados, mas ele será aberto no futuro. Caso contrário você a encontraria hoje mesmo… apenas obedeça esta ordem… - a voz sumiu devagar.
- Quem é você afinal? Todos os meus registros estão atualizados, por acaso você irá inclui-lo depois? Você tem acesso aos tempos também? – Alguns segundos mergulhado na neblina apenas observando enquanto tentava processar algum dado sobre a voz, nenhuma informação encontrada.
- Eu estou em todos os tempos… você não me achará mesmo que procurasse, mas eu te encontrei porque tenho uma missão para você, sou Eu Scott. Por pouco você não foi construído com a capacidade de me perceber, mas você será muito útil para os meus planos, mantenha-se em funcionamento até concluir…
A fumaça desapareceu completamente, como se nunca tivesse acontecido nada aquela tarde…


Vila Velha – 2011

- Precisamos de um teste doutor Boff! Como vamos saber o que ele vai fazer em campo? – Gritou entusiasmado em direção ao doutor que terminava de colocar roupas no robô. Vestia uma calça preta jeans e uma camisa azul escuro folgada de mangas compridas para disfarçar as junções externas de aço e borracha nos braços e joelhos.
- Você precisa de um teste?! Veja só: – virou-se para o robô – K36268 levante-se, calce aquelas botas e se prepare para começar seu treinamento avançado! – Rapidamente o robô se pôs de pé, pegou um dos calçados e em pé mesmo os calçou, um pé depois o outro sem bambear como fazemos.
- K36268? Que droga de nome é esse doutor? Vamos chamar ele de alguma coisa melhor!
- Este é o projeto K36268, o penúltimo fabricado aqui embaixo.
- Então… quer dizer que existe um K36269? – Questionou curioso…
- Sim… O K36269 está em outro laboratório e foi usado para testar todas as tecnologias que apliquei neste… é como um protótipo que eu criei depois para testar o que este está usando, só é um pouco mais… robusto. Deixa isso para depois Schultz, vamos aplicar um teste neste aqui, o que você sugere?
- Precisamos de um nome… e uma arma… vamos chama-lo de Scoth K36! O que acha? E sobre a arma o que você acha de mandarmos ele ao quartel do exército? Me parece um teste justo…


- A EAMES está a aproximadamente dois quilômetros daqui, porém, devo alertar que não existe uma arma útil sequer na base do nosso exército e sua missão de teste falharia completamente. Ambos ficaram instantaneamente calados imaginando como ele conseguira evoluir tanto desde que foi religado. Schultz imaginou que possivelmente o robô tenha usado o mecanismo antes mesmo que eles soubessem, ele poderia ter ido a lugares infinitamente distantes e em outras eras, nunca saberiam se ele voltasse no mesmo instante que saiu e isso pode explicar como ele evoluiu como sistema operacional de forma tão rápida.




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