segunda-feira, 1 de maio de 2017

Crônicas de Zephira #5

CINCO

Já em casa tudo que ela precisava era dormir e tentar esquecer toda loucura daquela noite. Como fazemos quando alguma coisa dá muito errado e precisamos pedir ao mundo que vire a próxima página o mais rápido possível. Após um banho quente e roupas limpas Diana finalmente conseguiu sentar no sofá velho da sala com uma caneca quente de café nas mãos. Todas as lâmpadas apagadas, apenas o brilho laranja que entrava pela janela enquanto a moça observava algum ponto desconhecido do lado de fora entre uma e outra olhada para outro ponto desconhecido no teto. As dores ainda comiam suas costelas e as pontas dos dedos do pé ardiam pela corrida da noite, mas o que foi mesmo que aconteceu? Ela definitivamente não iria pensar em nada daquela noite, pelo menos tentava.

Meia hora depois o sono a consumiu com tanta força que provavelmente não percebeu quando saiu do sofá e deitou-se na cama, ainda desarrumada da noite anterior, ela só percebeu que ligou um ventilador velho e barulhento de teto e apagou como se não houvesse acontecido nada. Até que começou a sonhar, ou seria aquilo uma visão? Não sabia ainda distinguir uma coisa da outra, não aqueles dias.
Sonho ou visão, o calor extremo era verdadeiro. Diana estava num deserto tão quente que a moça não tinha palavras para comparar aquilo tudo. Não bastava todo cansaço daquela noite, agora isso? – pensava a moça. A areia derretia seus pés descalços enquanto ela ainda tentava entender onde estava. À sua frente apenas a areia dourada e quente e céu, azul como visto de um oceano, atrás de si um banco de areia invadia algumas rochas escuras e isso era tudo que tinha para observar. Ao longe, cerca de dois quilômetros a areia desaparecia para dentro da terra e depois subia novamente como que uma imensa onda de areia estacionada naquele lugar e o vento, o vento era a pior parte. Passava quente por ela, não refrescava menos que a areia sob os seus pés, pelo contrário, ele já tinha queimado seu rosto em exposição total ao ambiente.
- A senhora definitivamente está perdida… e praticamente nua para estar num deserto como este… - disse uma voz vindo à esquerda da moça. Diana ainda não conseguira dar um passo em direção alguma, estava de joelhos e ainda tentava compreender como foi praticamente jogada num deserto com aqueles mil graus comendo suas costas.

- Sim… é o que parece? – Gritou olhando para cima tentando ser audível ao som do vem e ver quem falava com ela.

Acima de si um camelo branco observava o horizonte fixo em sua posição, montado nele um senhor de idade usando uma túnica azul com detalhes dourados como que feitos de linhas de ouro, cobriam suas roupas enquanto um turbante vermelho sangue com detalhes em ouro também, seu rosto estava quase todo coberto de forma que olhando para ele Diana só conseguiria ouvir suas palavras.

- Quer um pouco de água para continuar seu caminho? Tenho alguma aqui comigo…
- Alguma? Olhe para esse lugar? Sua água secaria antes de chegar nas minhas mãos… - disse levantando-se ao nível dos pés do homem dobre o camelo.
- A água que tenho aqui – disse tirando um pequeno frasco amarelo transparente do bolso, havia água na metade dele. – pode ser suficiente para você conseguir enxergar seu caminho moça… tome! – terminou esticando o braço para que ela pegasse o frasco.


Diana aceitou a água do homem, observando os detalhes estranhos que tinha. Era arredondado, mas umas pontas finas de um material de metal que envolvia todo ele faziam com que não fosse fácil apertar ou segurar, uma tampa prateada em formato de gota segurava o pouco líquido ali dentro. Enquanto sentia a textura do estranho frasco a atenção dela foi tomada por uma visão de um oásis a mais ou menos meio quilometro, o qual ainda não havia notado até aquele momento. Da sua posição ela podia ver um pequeno lago no centro rodeado de algumas palmeiras velhas e talvez alguma grama, caso sua mente não tivesse a enganando.
- Vou agradecer sua água… posso guardar ela para mais tarde? Preciso chegar àquela fonte, ou oásis, sei lá… - e começou a caminhar em direção ao pequeno oásis enquanto o estranho ficou observando ela chegar no local desejado.


Parecia mesmo que ela havia resolvido um problema enorme durante aquele sonho, e ela sabia mesmo que estava sonhando, acontece com algumas pessoas. Diana se apoiou em algumas palmeiras sentindo-se muito bem ao ouvir o som do vento balançando as folhas e havia mesmo alguma grama ali e é possível que ela tenha visto até mesmo alguma flor aqui ou ali, mas este detalhe ela não pensou em se importar. Ela não se importou nem mesmo em retirar as roupas e num segundo estava mergulhada naquele pequeno lado que mesmo pequeno cabia pelo menos três pessoas do mesmo tamanho dela. Após alguns minutos ela estava encostada em uma palmeira tão grossa que a sombra a cobria perfeitamente, havia tomado toda água que podia e estava molhada suficiente para ficar bem por algum tempo.
- Conseguiu o que queria Diana? – disse novamente a voz depois de descer do camelo em direção a ela.
- Sim, acho que estou completa, mesmo não entendendo o que tudo isso significa… o que estou fazendo aqui e… quem é você?
- Notei que você passou bastante tempo na lagoa, aproveitou o máximo que podia… como se sente em relação ao calor de hoje?
- Hunf, mais um que não responde as minhas perguntas… estou bem! Ou não, sei lá eu estou num deserto ao invés de estar em casa, hoje foi um dia difícil e ao invés de dormir eu acordei aqui, neste inferno! – reclamou olhando novamente para o estranho.
- Bem, como assim está aqui? Você está onde sempre esteve… não notou? Aliás, você não tem enxergado muita coisa… ainda tem aquele frasco de água que te dei agora a pouco? – Perguntou estendendo a mão para receber da moça. Diana entregou sem questionar, estava processando toda aquela informação aparentemente criptografada dita por um homem estranho do deserto.


O homem cuidadosamente retirou a tampa em formato de gota prateada, observou o quanto de água ainda tinha dentro do frasco e chamando a atenção de Diana derramou toda água nos olhos da moça enquanto ela automaticamente aguardava de olhos fechados a água escorrer sobre seu rosto e desaparecer antes de chegar à blusa molhada. Diana abriu os olhos devagar tentando entender o que seria todo aquele ritual.
- Abra bem os olhos filha. Observe tudo ao seu redor, não deixe de ver também o lago. – disse desaparecendo como que no ar.


Não estava mais quente como antes, o vento agora ficara frio e úmido, alguma coisa havia mudado em questão de segundos e Diana agora tinha uma visão completamente diferente do deserto em que estava. As palmeiras estavam envelhecidas e mortas, não havia mais folhas verdes como anteriormente e toda grama não passava de um rastro negro espalhado pelo chão. O sol já não queimava tanto, talvez pela sensação de mudança ela não percebera que sua intensidade era a mesma. Diana levantou-se olhando em volta buscando aquele homem que derramara a água em seus olhos, nada. Ele havia desaparecido. Caminhou em direção ao lago quase que levada pela vontade de ver se alguma coisa havia mudado, parou um instante olhando o deserto ao longe, havia restos de animais espalhados derretendo ao sol e ela podia jurar que algumas ossadas pareciam de humanos. Estava paralisada com o fato de aquele homem ter desaparecido e as primeiras coisas que viu foram tantas que ela não conseguiu se assustar com tudo que estava vendo. Sentou à beira do lago colocando os pés na água fria ainda observando se o homem não tinha se escondido atrás de uma palmeira ou outra, mas ele não estava ali mais. Quando voltou sua atenção ao lago saiu como que num pulo batendo seus pés com tanta força no chão que as feridas da noite anterior estavam aparecendo novamente. O lago era de uma água escura e espessa, havia carcaças de animais e ali realmente haviam carcaças de pessoas e alguns pedaços de pano rasgados enroscados em galhos secos às margens. Uma sensação extremamente doentia tomou conta de Diana, queria sair do próprio corpo tamanho o nojo de ter tomado banho e bebido aquela água. A moça tirou toda roupa jogando de lado tentando se livrar do cheiro que aquilo tudo tinha, um esforço pequeno perto de tudo que ela tinha feito até ali. Andando de costas ainda tentando retirar a calça jeans a moça tropeçou num tronco velho, foi quando acordou caindo da cama onde apagara.


Chorando ela se pôs de joelhos com o rosto na cama. Aquilo tudo fazia muito mais sentido do que deveria, não era apenas um sonho. Alguém ou alguma coisa realmente entregou um recado a ela e era demais para ser evitado como fez na noite anterior. Geralmente pessoas não tem tantos sinais ao mesmo tempo, porém muitas delas o têm e ignoram, não é o caso de Diana. Após alguns minutos pensando em toda sua vida a moça foi interrompida pelo toque do celular, outro número desconhecido e ela precisava atender.


- Oi – disse ainda soluçando.
- Bom dia Diana, tudo bem com você? Está chorando? – disse a voz ainda desconhecida…
- Estou bem, apenas um sonho estranho… Carlos, é você?
- Ah, desculpa não ter me apresentado, me chamo Paulo, sou o pastor que trabalha junto da dupla dinâmica que você conheceu na noite anterior, eles devem ter falado sobre mim…
- Não, realmente eles não disseram nada sobre você… mas porque está me ligando? Sabe o que acontece?
- Todas as partes do que aconteceu… você foi chamada Diana, e por ter rejeitado foi chamada por alguém muito maior do que nós três. – disse como que sorrindo do outro lado.


- Tá… eu preciso te contar sobre o que aconteceu esta noite… - E contou todos os detalhes do sonho. Paulo ouviu atentamente apenas explicando partes do sonho para que ela pudesse ter certeza de que aquela visita não tinha sido apenas uma coincidência, há muito mais em alguns sonhos do que sabemos, mas para isso precisamos estar atentos ao que acontece com nossa vida e com o que vemos enquanto dormimos. Em pouco tempo Diana estava tomada pela ideia de que realmente havia sido buscada por uma força muito maior do que já experimentara, aquilo pertencia a Deus. Sua família não era de religiões e por isso ela não tinha experiencia nenhuma com esses assuntos, exceto aqueles sonhos que tinha acordada quando era pequena. Alguma coisa no passado fazia aquilo tudo fazer algum sentido, ela descobriria isso mais tarde, agora tudo que ela precisava era se arrumar e ir no endereço entregue por Paulo, onde haveria um culto e após isso conversar com os três sobre o que estava acontecendo… de fato existe um momento na vida das pessoas em que tudo muda, aquele momento que não se pode negar ou deixar passar. Mesmo assim é triste ver que algumas pessoas estavam deixando de dar atenção a estes sinais e com isso ficam a vida toda presas em um mundo que não existia por si só.

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