domingo, 12 de fevereiro de 2017

Crônicas de Zephira #1

UM


Um forte barulho de água caindo do chuveiro fez com que Diana despertasse de um terrível sono, sua cabeça estava para explodir e ela fora forçada a abrir os olhos para entender onde estava e o que havia acontecido. Do lado de fora a noite ia consumindo o resto do dia, os postes já iluminavam sozinhos as ruas e suas poças espalhadas por todo canto da rua esburacada, um tom laranja que lembrava mais uma fotografia sépia mal configurada relembrando cada vez o cenário apocalítico a qual a humanidade se aproximava. Naquele mesmo ano uma lei entrava no congresso da região UM para votação sobre a mudança completa de fuso horário, onde as pessoas trabalhariam na parte da noite e descansariam a parte do dia, devido ao aquecimento acelerado do aquecimento global. Pessoas morriam cada vez mais jovens de câncer de pele e outras doenças.

Diana abriu um dos olhos enquanto apertava o outro com força devido à dor de cabeça, era como se alguma coisa estivesse apertando cada vez mais ela contra a madeira do sofá envelhecido de cor marrom enquanto fazia força para se levantar. A moça enfim sentou no sofá ainda notando o estranho som do chuveiro desperdiçando o pouco de água que restava de sua conta. Antes de pensar em ir em direção do banheiro foi tomada de uma estranha sensação que a fez subitamente fixar os olhos em direção à janela que dava para a avenida principal.

Ao virar-se Diana deparou-se com uma mulher sentada na janela. Não era como se ela realmente estivesse lá, era como se ela estivesse sonhando por um momento ao mesmo tempo em que o barulho no banheiro revelava que aquilo não poderia ser apenas um sonho, talvez uma visão. A mulher esguia estava presente, não importava se era um sonho, visão ou, seja lá o que fosse, era real e sua presença tragava a atenção de Diana em cada detalhe. Seu vestido colado vermelho, suas unhas muito bem finalizadas no mesmo tom, o cabelo negro estranhamente escorrido até a altura dos seios e um batom que parecia estar líquido, em tom de sangue que fez com que ela sentisse o sabor em sua própria boca.

- O que… quem é você, como me trouxe até aqui? – Perguntou a moça se levantando em direção à outra mulher que permanecia intacta na janela, agora esboçando algo como que um sorriso. Diana apoiou uma das mãos no braço do sofá enquanto ajeitava seu cabelo que escorria por cima dos olhos, lembrando a incrível coincidência do tom vermelho usado pela mulher imóvel do outro lado da sala, enquanto isso o barulho no chuveiro continuava. Um ou dois passos em direção a ela e já não fazia mais ideia de onde estava, olhava tão fixamente para a mulher de vermelho que esquecera até mesmo a incrível dor de cabeça e o acontecimento anterior a este. A estranha mulher ergueu o queixo fazendo com que a luz alaranjada do poste pousasse sobre seus olhos revelando mais detalhes de seu fino rosto, liso como cerâmica. Seu olhar igualmente avermelhado fez com que a moça ficasse imóvel por um segundo a menos de um passo.

- Quem é você? Que sensação é essa? – Estava agora voltando aos seus sentidos. Por conta disso o rosto da mulher voltou-se para baixo, agora exibindo um olhar mortal revelando um estranho ódio enquanto cerrava as mãos como que preparando alguma coisa. Diana afastou um pouco e tomou coragem para tocar ela tamanha curiosidade e quando o fez o rosto da mulher tornou-se como o de um demônio, com traços de luta e uma expressão impressionantemente marcada pelo ódio, seus olhos tonaram-se azuis como o céu claro e estavam cerrados planejando algo que ela descobriria mais tarde.
- Afaste-se de mim escrava maldita! – Disse, agora com um leve sorriso no rosto. Neste instante e ainda não entendendo o que acontecia naquela sala Diana notou que o barulho do chuveiro havia parado, virou-se por um instante para o banheiro e quando voltou sua atenção uma estranha e espessa neblina negra a abraçava, havia algo no meio dela, era como se através dela pudesse ver o outro lado de algum lugar, era obscuro e frio e a envolveu rapidamente até formar uma espécie de bolha enquanto a estranha voz da mulher ressoava em seus ouvidos.

- Você não pode dar conta sozinha, escrava maldita, eu te odeio desde já! Fracassada, desiste logo e eu destruo você um pouco mais rápido do que farei dentre algum tempo… escrava maldita, eu te odeio… odeio você e todos aqueles doze malditos que insistem em me importunar… - Diana caiu apoiada em um dos joelhos, lógico, sem saber nada do que estava acontecendo, mas pode notar que alguma coisa de muito estranho estaria perto de acontecer, foi como se aqueles estranhos sonhos e visões que tinha quando criança estivessem mais vivos hoje, especialmente hoje… mas, por quê?


- Olá! – disse uma voz vinda do banheiro, completamente molhada, ainda de roupas, farrapos na verdade. Com os cabelos grudados no rosto enquanto lutava para descolar toda a roupa presa no corpo por causa da água.

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